A frota do governador

15Mar19

O governador Ronaldo Caiado (DEM), depois de intensa campanha nas redes sociais, comandou nesta semana o leilão de dois veículos Hyundai Equus que serviam o chefe do Estado. A ideia merece aplausos, o problema é o que esteve por trás dela. São veículos de manutenção caríssima (um jogo de discos e pastilhas de freio custa mais de R$ 10 mil), ainda mais com anos de uso. Então, já era hora de substituí-los, até por questão de segurança. O presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, deve renovar neste ano a frota que o atende.

Aproveitar esta necessidade e oportunidade para sensibilizar os empresários a colaborarem com causas sociais do governo é uma bela jogada. Não interessa o valor final arrecadado (pouco mais de R$ 300 mil), nem mesmo o baixíssimo interesse dos empresários de participarem neste primeiro leilão, e sim promover uma campanha para conscientizar aqueles que têm mais recursos contribuírem mais com o Estado.

Só que não. A principal motivação por trás do leilão dos veículos foi proselitismo político, quando o governador destacou em suas várias falas que estava acabando com as mordomias para quem está no poder no Estado, numa referência direta aos ex-governadores tucanos. Enfatizou diversas vezes que seu governo leiloaria “carros de luxo” que serviam aos seus antecessores. Antes de mais nada, convém frisar que esses veículos (de anos 2011 e 2013) foram doados ao Estado pela Caoa Hyundai, que tem fábrica em Anápolis. Não foram comprados com o dinheiro do contribuinte.

Mas também veio à tona outra discussão, sobre a frota que serve o governador. Eram 30 veículos, agora são 28. O fato é que a grande parte desta frota é necessária e importante. Ao conhecer a agenda do governador e a estrutura de apoio e de segurança que o cerca, fica fácil de compreender isto. Estes veículos não ficam apenas a disposição do chefe do Estado, são usados também para atender as necessidades de mobilidade da primeira-dama (e os filhos do casal, se for o caso), além das equipes de segurança que os acompanham. Fora isto, alguns prestam serviços gerais ao Palácio das Esmeraldas e também é preciso deixar algumas unidades de reserva e prontidão para casos de urgências e emergências.

Para se deslocar na capital, além do veículo que transporta o governador (e convidados dele), há os da segurança. Não são menos do que 2 fazendo este trabalho. O mesmo para a primeira-dama. Quando a agenda do governador prevê viagens no interior do Estado, algumas vezes em mais de 2 municípios num dia, ele se desloca de aeronave e as equipes de apoio e de segurança têm de estar de prontidão já no local para receber o governador e sua comitiva.

Cada equipe não usa menos do que 3 veículos, fora os que têm de ficar de prontidão para alguma emergência. Se a agenda do governador prevê visitar 4 ou 5 municípios num dia (algo que o governador precisa fazer de vez em quando), são mais de 15 veículos só de apoio e segurança envolvidos. Além disto, pelo menos 2 veículos ficam sempre de prontidão em Brasília para atender o governador, que pode precisar de deslocar para a capital federal sem aviso prévio.

Quando não existem estas demandas, boa parte destes carros ficam guardados na garagem do Palácio das Esmeraldas ou está em manutenção. Portanto, uma frota composta por 28 veículos que serve ao governador e a primeira-dama pode parecer desperdício de dinheiro público e luxo, mas não é bem assim. Ela tem sua necessidade. É um chefe de Estado. Pode até se discutir se há necessidade de 30 carros, mas a conta final não ficará muito menor que isto.

Outro fato: a frota que atende o governador (e suas equipes de segurança e de apoio) já tem mais de 5 anos de uso, o que torna a sua manutenção cara e o risco maior. O que poderia se fazer é “negociar” com as montadoras em Goiás, que usufruem benefícios fiscais generosos, para que façam a renovação desta frota a cada dois ou três anos, sem custos ao Erário. Até porque seria uma propaganda para as montadoras ter o chefe de Estado sendo transportado em seus veículos fabricados em Goiás. E a frota atual ser leiloada com a renda revertida para programas sociais.

De longe isto resolve o problema de caixa do Estado, mas como disse o próprio Ronaldo Caiado, é a simbologia do ato que importa. A verdadeira simbologia, não um factóide político.



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